Aproximadamente 70% da soja mato-grossense da safra 2004/2005 ainda não foi comercializada no mercado futuro. A situação contradiz com anos anteriores, quando em janeiro pelo menos 60% da produção já estavam negociados neste período. Por causa disto, segundo superintendente da Companhia Nacional de Abastecimento em Mato Grosso (Conab), Ovídio Costa Miranda, a soja pode lotar os armazéns e provocar estrangulamento da segunda safra do milho no meio do ano. Entretanto, ressalta que o fato não é motivo para pânico, pois se a hipótese se confirmar, haverá intermediação da Conab para evitar prejuízo ao produtor.
De acordo com Miranda, o governo pode intervir por meio de contratos de opção, aquisição e remoção simultânea do produto. Mas lembra que a confirmação do obstáculo vai depender das reações de mercado. Ele lembra também que normalmente a soja tem rotatividade grande e dificilmente atrapalha armazenamento de outras culturas. O único prejudicado seria mesmo o milho porque em geral parte dos armazéns que trabalham com soja negociam em sistema de rotatividade com o grão. Sobre a possibilidade de faltar espaço para a soja, ele diz que não acredita na hipótese, pois os sojicultores negociam com tradings, que têm grande capacidade de armazenamento.
De acordo com o diretor secretário da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Valdir Corrêa da Silva, uma minoria de produtores não comercializou a soja 2003/2004. Assim, não acredita na possibilidade de os armazéns ficarem lotados por causa das duas safras. Lembra ainda que os 30% negociados provavelmente foram trocados por insumos, sementes ou Cédula de Produto Rural (CPR).
A menor comercialização desta safra ocorreu por causa das dificuldades enfrentadas pelo setor em 2004, quando houve aumento de preço dos insumos e queda do dólar. Miranda explica que o produtor retraiu a oferta na espera de mercado mais favorável à venda, o que afetou a negociação antecipada da safra. O diretor da Famato, Valdir Silva, acrescenta que o preço desvalorizou quase 100% de uma safra a outra, passando de cerca de R$ 50 para em média R$ 25 hoje. Com isso, o produtor irá esperar melhor cotação à soja estocada.