Depois de dois anos de ouro da agricultura, com ganhos recordes, os preços dos grãos começaram a murchar em razão da maior oferta mundial.

Os cancelamentos começaram no mês passado e o volume é significativo, especialmente no caso dos tratores. Segundo fabricantes, optar por tratores reformados em lugar de novos é mais fácil do que no caso de uma colheitadeira, por exemplo. No caso do trator, o risco de afetar a produção por trabalhar com equipamento desgastado é menor porque ele é usado como tração do implemento agrícola. Já usar uma colheitadeira obsoleta ou em condições precárias significa jogar dinheiro fora, porque prejudica a produtividade da safra. "Vamos vender um volume 30% menor de equipamentos do que o inicialmente previsto", diz o gerente Comercial de Insumos da Cocamar Agroindustrial, Reinoldo Rocha. A cooperativa do Paraná consultou os filiados e reduziu as encomendas às fábricas.

Leonardo Lund Ferreira, gerente Comercial da Agrosul, que revende máquinas agrícolas da marca John Deere e adubos Manah, no oeste da Bahia e no Piauí, confirma que as vendas de tratores e máquinas agrícolas pararam há 45 dias. Ele conta que os pedidos estão sendo revistos. "Os agricultores tentam obter mais prazo de pagamento da parcela da compra que é quitada com recursos próprios para evitar cancelamentos. "As entregas também estão atrasadas, por causa da paralisação da linha de crédito do Moderfrota do BNDES e da greve dos bancários."

Números do Moderfrota confirmam a menor disposição do agricultor em ir às compras. De julho a setembro, foram liberados R$ 598,2 milhões de crédito para máquinas agrícolas, ante R$ 750,7 milhões nos mesmos meses de 2003. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores reviu a estimativa de vendas para este ano de um crescimento de 5,3% para apenas 1% em relação a 2003. No mês passado, as fábricas venderam 3,8 mil máquinas, volume 8,7% menor que em igual período de 2003. "O agricultor adiou investimentos e o impacto maior na indústria será sentido em 2005 porque não há como desacelerar a produção agora", diz um fabricante.

José Maria Tomazela