O Brasil é um dos países que menos concede subsídios a seus agricultores no
mundo, situando-se ao nível de nações como a Austrália e a Nova Zelândia,
segundo informações preliminares de um estudo realizado pela Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentado nesta segunda-feira em
Paris.
A OCDE elaborou um amplo estudo sobre a política agrícola de quatro países de
peso no comércio internacional que não são membros da organização: Brasil,
China, Índia e África do Sul. O estudo definitivo deverá ser divulgado apenas em
outubro, após a finalizações de ordem técnica e a aprovação pelos 30 países-membros
da organização.
- Esse estudo confirma a nossa percepção de que o Brasil tem um baixo grau de
proteção agrícola - disse Ivan Wedekin, secretário de política agrícola do
Ministério da Agricultura.
Rodada de Doha
Os cálculos preliminares apresentados no estudo revelam que o Brasil teria um
índice de apoio aos produtores agrícolas (chamado, em inglês, de Producer
Support Estimated ou PSE) inferior a 10% (o número definitivo será divulgado em
outubro).
O índice dos países da OCDE, que reúne economias como a da França, é de 30%.
Já o dos Estados Unidos é de 16%. A constatação de que o Brasil não concede
fortes subsídios aos agricultores deve fortalecer, na avaliação das autoridades
brasileiras, a posição do país nas negociações para a liberalização do comércio
mundial na Organização Mundial do Comércio (OMC).
A agricultura é justamente o tema que está emperrando as discussões da
chamada rodada de Doha da OMC. Isso porque os países ricos resistem a diminuir o
grau de proteção de seus mercados agrícolas e a reduzir seus subsídios internos,
reivindicação do G-20, grupo de países em desenvolvimento liderado pelo Brasil.
O governo brasileiro condiciona o avanço das negociações em outras áreas,
como serviços e bens industriais, a progressos na questão agrícola.
- O estudo da OCDE cristaliza a posição negociadora brasileira na área
agrícola. O Brasil, como outros países em desenvolvimento, terá ganhos com a
liberalização do comércio mundial. Mas o potencial agrícola desses países está
sendo limitado por fatores como os subsídios concedidos pelas economias ricas -
afirmou o secretário de política agrícola do Brasil.
Pobreza
Mas o estudo constata também alguns problemas em relação ao Brasil, como o
elevado nível de pobreza no país. Fatores macroeconômicos, como a alta taxa de
juros (13% de juros reais ao ano) e a taxa de câmbio, que afetam o desempenho na
área agrícola, são apontados no documento da OCDE.
- O estudo faz uma ampla revisão da política agrícola brasileira e pudemos
aprender mais sobre nos mesmos - disse Wedekin, reiterando que essas
constatações devem levar o Brasil a adotar medidas "mais focadas" em relação ao
assunto.
Índia, China e África do Sul também concedem menos subsídios agrícolas do que os
30 países da OCDE, revela o estudo.
Nos próximos dois dias, delegações dos países membros da OCDE e dos quatro países emergentes analisarão, em Paris, os dados preliminares desse estudo e suas implicações para o comércio internacional.