Um livro lançado ontem pelo conceituado IIE (Instituto de Economia Internacional, na sigla em inglês) sustenta que mesmo os ganhos obtidos com uma maior liberalização do comércio mundial serão menores no Brasil do que em outros países.

A divisão populacional no Brasil, onde 39% dos pobres vivem em zonas rurais, e a péssima distribuição de renda impedirão que os miseráveis brasileiros sejam beneficiados na mesma proporção de outras nações, como Índia, China e Paquistão.

O Brasil é um dos líderes de um grupo de duas dezenas de países que lutam pelo fim dos subsídios agrícolas nos países desenvolvidos. O argumento é que o fim da ajuda governamental a produtores americanos e europeus tornará os produtos de países menos desenvolvidos mais competitivos.

Para o economista William Cline, autor de "Política de Comércio e Pobreza Global", lançado ontem em Washington com a participação da vice-diretora-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Anne Krueger, a disputa brasileira pode levar a um resultado pífio para o país.

Ex-economista-chefe do IIE, Cline foi também ex-secretário-assistente do Tesouro no governo do presidente Richard Nixon.

Cline estima que a eliminação total dos subsídios nos EUA e Europa causariam uma elevação de cerca de 10%, em média, nos preços dos principais produtos agrícolas no mundo. Anne Krueger disse concordar com a estimativa do "sério impacto" do fim dos subsídios sobre os preços.

As populações rurais dos países em desenvolvimento seriam altamente beneficiadas, já que ganhariam mais com a produção e a exportação de seus produtos.

Em 72 países analisados, 74,7% da população pobre vive em áreas rurais. A importante exceção é a América Latina. No Brasil, apenas 39% vivem no campo. Na Argentina, 14%; no Chile, 18%.

No final, a eliminação dos subsídios, segundo Cline, traria um efeito inverso para os latino-americanos: os pobres das cidades, onde estão mais concentrados, acabariam ficando mais pobres ao terem de pagar mais caro pela alimentação --que tem um peso específico muito mais alto no orçamento de famílias miseráveis.

No Brasil, os ganhos obtidos pelo pobres no segmento rural seriam totalmente eliminados pelo empobrecimento maior dos miseráveis nas cidades. Em países como Índia e China, onde a esmagadora maioria dos pobres vive no campo, a redução do número de miseráveis com a eliminação dos subsídios e liberalização do comércio seria enorme: de 74,6% e 47,1%, respectivamente, ao longo dos próximos 15 anos.

"De fato, o Brasil não terá os ganhos esperados na redução da pobreza. Mas poderá ser beneficiado por um crescimento maior gerado pelo setor exportador", disse Cline à Folha. O economista afirmou, porém, que mesmo os ganhos com o crescimento podem não chegar aos pobres por causa da iniqüididade na distribuição de renda. "Na média, cada ponto percentual de crescimento reduz a pobreza em 2%. Mas isso não vale para o caso brasileiro e latino-americano", afirmou Cline.