Curitiba – As pesquisas sobre produtos geneticamente modificados podem deslanchar no Brasil a partir de agora, de acordo com pesquisadores brasileiros. Elas serão estimuladas pelo interesse dos agricultores de conquistar novas fatias do mercado europeu de alimentos. Nesta semana, a União Européia liberou a importação de milho da variedade BT-11 (resistente a insetos) da multinacional norte-americana Syngenta.

De acordo com João Flávio Veloso Silva, chefe adjunto de pesquisa da Embrapa-Soja, de Londrina, entidades nacionais públicas e privadas têm condições de concorrer com empresas estrangeiras na área de tecnologia em alimentos. “Temos recursos humanos para disputar este mercado, embora não tenhamos as mesmas facilidades de financiamento”, comenta. A Embrapa já faz pesquisas de variedades transgênicas de mamão, feijão, soja e batata.

Além da dificuldade de dinheiro, Silva afirma também que é difícil conseguir a liberação dos projetos de pesquisa. Hoje, além de autorização da CTNBio, as pesquisas envolvendo biotecnologia necessitam também do aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recuros Hídricos (Ibama).

Os pesquisadores querem simplificar este processo – possibilidade que é acenada pela Lei de Biossegurança, que está em discussão desde o ano passado e hoje é debatida pelos senadores.

Ivo Carraro, diretor executivo da Cooperativa Central de Pesquisa Agrícola (Coodetec), de Cascavel, diz que há disputa de poder entre as esferas de governo no que diz respeito à autorização de novas pesquisas. “Todo mundo – estados e municípios – quer criar normas para as leis federais”, comenta.

Carraro diz que a decisão de analisar a liberação do consumo de transgênicos caso a caso – como fez a União Européia – é acertada. “Não pode ser uma decisão ideológica, simplesmente sim ou não. Existem os alimentos transgênicos positivos e os que podem ser até perigosos”, ressalta.

Para o diretor executivo da Coodetec, é necessário dar uma perspectiva de aplicação prática para as pesquisas feitas com transgênicos no Brasil. “Nós já perdemos parcerias com empresas internacionais. Enquanto isso, nosso mercado é tomado por transgênicos clandestinos. O que já aconteceu com a soja também vai ocorrer com a soja e com o algodão. Os agricultores vão trazer as sementes da Argentina.”

Fernando Scheller