O Estado de Mato Grosso se apresenta hoje como um dos epicentros do boom
agrícola brasileiro, seja pela posição que ocupa na agricultura e pecuária, como
um dos maiores produtores de soja, milho safrinha, arroz de terras altas,
algodão e bovinocultura, seja pelo saldo do comércio internacional gerado com
estas commodities. Alguns fatores desse sucesso devem ser investigados, os quais
conferem maior competitividade ao estilo do pregado por Porter ou, ainda, pelos
chamados institucionalistas.
O estado, até pouco tempo atrás, era importador líquido de energia, carente
de rodovias pavimentadas, de pessoal qualificado etc. Hoje, o cenário se altera
de modo significativo.
Analisando-se a infra-estrutura, Mato Grosso surge com idéias relativamente
inovadoras, continuando o processo de saída do Estado empresário e entrada do
Estado regulador, que viabiliza as cooperações entre empresários e a realização
de rodovias pavimentadas pelo estado. São cerca de 2440 Km de estradas a serem
pavimentadas nos consórcios entre produtores rurais e o setor público.
De outro lado, o estado desponta com excedente energético, embora ainda
necessite melhor distribuição deste insumo. Na questão de armazenagem, como em
todo o Brasil, o crescimento da produção não conseguiu elevar a capacidade
armazenadora na mesma velocidade, entretanto, as empresas do estado trabalham em
ritmo apressado para compensar esta defasagem.
Considerando a mecanização, grandes investimentos vêm alcançando sucesso via
Moderfrota, o programa federal de modernização da frota agrícola, aliado a um
esforço para trazer empresas de implementos agrícolas, com assessoria
qualificada aos produtores, uma vez que o estado não conta, ainda, infelizmente,
com cursos superiores de Engenharia Mecânica e Engenharia Agrícola. Este é um
campo aberto aos investidores de visão!
Do lado da pesquisa científica, especificamente para algodão, soja, arroz e
genética bovina, investimentos mistos, públicos e privados, têm compensado a
defasagem histórica e permitiu o grande avanço produtivo. Entre os fomentadores
destas pesquisas, tem-se, principalmente, o Fundo de Apoio a Cultura do Algodão
- FACUAL, a Fundação Mato Grosso, a Fundação de Apoio a Pesquisa de Mato Grosso
FAPEMAT, a Universidade Federal de Mato Grosso UFMT e a Universidade Estadual de
Mato Grosso - UNEMAT, que aumentam a base científica local, criam novos grupos
de pesquisa, cursos de pós-graduação e incentivam a fixação de novos doutores,
contando com apoio federal, embora mais escasso que em anos anteriores.
No contexto estratégico, novas iniciativas de organização auxiliam os
produtores para a comercialização, principalmente para soja, com a Centrogrãos
na FAMATO, a AMPA, para o caso do algodão e a APA, para os produtores de arroz
de Mato Grosso. Para o caso do pequeno agricultor, estratégias surgem com a
FETAGRI, o Sebrae e Governo do Estado, contando com apoio federal para tentar
viabilizar a pequena agricultura. Tais associações de produtores permite maior
poder de mercado, fazendo frente aos poucos compradores do produto da
agropecuária.
Neste contexto, surgem eventos importantes a serem realizados em Cuiabá, que
auxiliam ainda mais o Centro-Oeste, num ciclo virtuoso da agricultura, como o
42º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, SOBER (www.faecc.ufmt.br/sober2004/),
buscando maior participação ativa dos produtores, empresários e pesquisadores do
Centro-Oeste, contribuindo para a aproximação dos melhores formuladores
nacionais de políticas para a área rural; como o Encontro Brasileiro em Madeiras,
Ebramem, contribuindo para a discussão dos tópicos relativos a esta matéria-prima;
como o Congresso da SBPC, reunindo os melhores pesquisadores de várias áreas do
conhecimento, especialmente o tecnológico.
O cenário é favorável, numa conjuntura de preços externos nunca vistos, como
o recorde para a soja em Chicago, mas recomendam-se ações estratégicas urgentes,
estendendo o ciclo virtuoso. Deve-se repensar o planejamento das áreas menos
favorecidas pelo modelo de mercado, assim como as muitas áreas com problemas
sérios de conflitos agrários, indígenas, ambientais entre outros.
A arte do planejamento não passa pela imposição de um único modelo de
desenvolvimento, mas pelo reconhecimento dos fatores geradores de
competitividade, como as indústrias de base, as instituições públicas de apoio à
pesquisa e capacitação de pessoas com foco estratégico local, e pela motivação
da sociedade local, rumo ao esforço coletivo de transformação. Os segmentos do
estado vêm se organizando e tais aspectos devem ser ainda mais exacerbados.
Assim, ressalto a importância da participação dos agentes antes, dentro e
após a porteira da fazenda, nos focos das discussões em Economia e Sociologia
Rural, exercendo a posição que cabe aos mato-grossenses como agentes
formuladores das políticas públicas tanto desejadas.
Adriano Marcos Rodrigues Figueiredo é Doutor em Economia Aplicada pela UFV e Professor de Política Agrícola da UFMT