O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, através de carta enviada aos países que compõem o G20 (grupo de países que lidera a campanha pelo fim dos subsídios agrícolas, liderado por Brasil e Índia), que as negociações agrícolas devem ser "o motor da Rodada Doha" e pediu resistência às tentativas para "dividir e enfraquecer" o grupo.

"É consenso que a agricultura deve ser o motor da Rodada de Doha. É também a peça central do impulso ao desenvolvimento e o foco da atuação do G-20", disse. O presidente Lula diz ainda na carta que "o nível de ambição em agricultura ditará o nível de ambição da rodada como um todo".

"Neste contexto, o G-20 tem sustentado, juntamente com os interesses na liberalização do comércio e o fim dos subsídios, a absoluta necessidade de tratamento especial e diferenciado para países em desenvolvimento", tanto no que diz respeito a cortes de tarifas como sobre salvaguardas especiais, diz o presidente.

"Devemos reforçar a unidade do grupo e sua capacidade de resposta frente às tentativas que, estou certo, se sucederão para dividi-lo e enfraquecê-lo", advertiu o presidente. "Devemos trabalhar no sentido de procurar estabelecer soluções criativas que levem ao aumento de suas receitas exportadoras, sem criar dependências como as que hoje subsistem." A carta do presidente foi enviada aos membros do G20 no último dia 4 --antes, portanto, das críticas feitas pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, à União Européia.

"É possível que a rigidez [dos europeus] tenha um objetivo: provocar uma crise", disse ontem o ministro. "O Brasil não fez uma proposta, mas enviou sinais dentro do possível. Especulamos com algumas cifras. Os americanos estavam interessados, mas a UE se fez de surda. Nem sequer disseram que queriam mais, simplesmente não reagiram." O Brasil ofereceu um corte de 50% em suas tarifas industriais para tentar desbloquear as negociações, que correm o risco de entrar em uma nova estagnação em dezembro, na reunião ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio) marcada para acontecer em Hong Kong.

Segundo Amorim, ainda é possível chegar a um acordo sobre liberalização comercial antes da reunião em Hong Kong, desde que a UE reduza mais suas tarifas sobre produtos agrícolas. Na semana passada, a UE ofereceu um corte médio de 46% em suas tarifas agrícolas.

Lula disse que as propostas apresentadas pela União Européia e pelos EUA "colocam novos desafios para o G20". "Temos que estar atentos também a propostas que, a pretexto de introduzir elementos realistas, representariam um rebaixamento do nível de ambição dos resultados, com efeitos negativos para nossos objetivos em relação aos subsídios", diz o presidente.