A escalada dos preços dos fertilizantes está levando produtores de Mato Grosso a rever uma etapa anterior à própria adubação: as condições do solo que receberá os nutrientes. Com ureia, fósforo e potássio mais caros, a correção da acidez por meio do calcário ganha importância como estratégia para aumentar a eficiência dos insumos e proteger a rentabilidade da safra 2026/27.
O movimento não significa substituir fertilizantes por calcário. A estratégia é outra: melhorar as condições químicas do solo para que as plantas consigam aproveitar uma parcela maior dos nutrientes aplicados na lavoura.
A preocupação aumentou com a deterioração da relação de troca dos fertilizantes.
Dados do Banco Central citados pelo setor mostram que o preço de referência da ureia granular entregue no Brasil aumentou 50% em maio, na comparação com a média dos dois primeiros meses deste ano.
No mesmo intervalo, o fosfato monoamônico (MAP) avançou 29,7%, enquanto o cloreto de potássio (KCl) ficou 9,7% mais caro.
O impacto é especialmente relevante para Mato Grosso. Fertilizantes representam uma parcela importante dos gastos para implantação das lavouras de soja e milho e, quando o preço sobe, aumenta também o custo econômico de eventuais perdas ou do baixo aproveitamento dos nutrientes.
Estudos do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) já indicam pressão sobre o custo potencial da safra 2026/27, colocando a eficiência no uso dos insumos entre as preocupações para o próximo ciclo.
DEPENDÊNCIA EXTERNA
A pressão não vem apenas dos preços atuais.
A elevada dependência brasileira de fertilizantes importados mantém os agricultores expostos às oscilações do mercado internacional, do câmbio e dos fretes.
O cenário geopolítico acrescenta outra variável. Instabilidades em rotas estratégicas de transporte marítimo no Oriente Médio podem provocar aumento nos custos de frete e seguros e atingir matérias-primas utilizadas na fabricação dos fertilizantes.
Para o produtor, essa combinação dificulta a previsão dos custos meses antes do plantio e aumenta a importância do planejamento.
É nesse cenário que a calagem ganha maior peso.
O calcário é utilizado para corrigir a acidez e melhorar características químicas do solo. A correção adequada pode elevar a disponibilidade de determinados nutrientes, favorecer o desenvolvimento das raízes e criar melhores condições para que as culturas aproveitem a adubação.
Assim, quanto mais caro fica o fertilizante, maior é a importância econômica de evitar que parte desse investimento seja desperdiçada por condições inadequadas do solo.
“A correção adequada do solo é um investimento que gera retorno durante várias safras. Quando o produtor trabalha com um solo corrigido, melhora o aproveitamento dos fertilizantes, reduz perdas, aumenta a disponibilidade de nutrientes e cria condições para alcançar maior produtividade. Em um período de custos elevados, essa estratégia se torna ainda mais importante”, afirma o empresário do setor João Afonso.
COMPRA ANTECIPADA
Outra mudança observada é a antecipação da aquisição de corretivos.
Segundo Afonso, produtores vêm incorporando a compra de calcário com maior antecedência ao planejamento da propriedade. Além da questão agronômica, a estratégia procura reduzir problemas de disponibilidade nos períodos de maior demanda.
“Percebemos um planejamento mais antecipado por parte dos produtores. O calcário deixou de ser visto apenas como uma operação de rotina e passou a ocupar um papel estratégico dentro do planejamento financeiro e agronômico das propriedades”, diz.
A antecipação também está relacionada às características da própria calagem. Antes da aplicação, o produtor precisa conhecer as condições da área, normalmente a partir da análise do solo, para definir a necessidade de correção.
Isso significa que a decisão sobre quanto aplicar não deve decorrer simplesmente do aumento do preço dos fertilizantes. A quantidade e a forma de aplicação precisam considerar as características de cada área.
EFICIÊNCIA GANHA PESO
Com insumos mais caros, a discussão para a próxima safra passa a envolver não apenas quanto gastar, mas quanto do investimento feito na adubação será efetivamente aproveitado pelas culturas.
A construção da fertilidade do solo é parte desse processo.
Além da correção da acidez, melhores condições de solo favorecem o desenvolvimento do sistema radicular, permitindo que as plantas explorem uma área maior em busca de água e nutrientes.
O resultado esperado é maior eficiência dos insumos empregados ao longo do ciclo.
Para as empresas do segmento de corretivos agrícolas, o cenário de custos elevados tende a manter a calagem no centro das decisões que antecedem a implantação da próxima safra.
“Em um ambiente de custos elevados e maior busca por eficiência, a expectativa é de que o calcário continue desempenhando papel central nas decisões dos produtores rurais ao longo da preparação da safra 2026/27”, afirma João Afonso.
A estratégia, entretanto, não elimina o impacto da alta dos fertilizantes. Ela funciona como uma tentativa de fazer com que um insumo cada vez mais caro seja utilizado de maneira mais eficiente — uma preocupação que ganha peso à medida que as margens do produtor ficam mais apertadas.