As mudanças no comércio internacional provocadas pela guerra tarifária entre grandes economias, pela alta dos juros e pela crescente exigência de sustentabilidade passaram a influenciar diretamente o planejamento do agronegócio de Mato Grosso. Mas, ao contrário do que muitos imaginavam, o novo cenário não provocou uma paralisação dos investimentos. O que está ocorrendo é uma mudança de prioridades.As mudanças no comércio internacional provocadas pela guerra tarifária entre grandes economias, pela alta dos juros e pela crescente exigência de sustentabilidade passaram a influenciar diretamente o planejamento do agronegócio de Mato Grosso. Mas, ao contrário do que muitos imaginavam, o novo cenário não provocou uma paralisação dos investimentos. O que está ocorrendo é uma mudança de prioridades.
Em vez de ampliar apenas a produção de grãos, empresas, cooperativas e produtores passaram a concentrar recursos em projetos capazes de reduzir custos, agregar valor à produção e aumentar a competitividade internacional.
O resultado é um novo mapa dos investimentos do agro mato-grossense, marcado pelo avanço da agroindustrialização, da bioenergia, da armazenagem, da infraestrutura logística e das soluções financeiras privadas.
"O produtor continua investindo, mas com muito mais seletividade. Hoje, cada projeto precisa demonstrar retorno econômico, redução de custos e maior capacidade de enfrentar um mercado internacional cada vez mais competitivo", avaliam especialistas do setor.
Bioenergia continua liderando - Nenhuma cadeia recebeu tantos investimentos quanto a do etanol de milho.
Nos últimos anos, Mato Grosso consolidou-se como o maior polo brasileiro desse segmento e novas ampliações permanecem em andamento.
A recente decisão do governo federal de elevar para 32% a mistura obrigatória de etanol na gasolina reforçou a segurança dos investidores e ampliou as perspectivas para novas plantas industriais.
Além do mercado doméstico, o setor já direciona parte dos investimentos para combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), etanol marítimo e produtos de maior valor agregado derivados do milho.
Para economistas, a bioenergia tornou-se um dos principais instrumentos para reduzir a dependência das exportações de commodities.
Industrialização ganha espaço - Outro movimento observado é a aceleração da agroindustrialização.
Empresas passaram a investir menos na simples expansão de área agrícola e mais em estruturas capazes de agregar valor à produção.
Usinas de etanol, esmagadoras de soja, fábricas de biodiesel, plantas de DDG, processamento de proteínas e unidades de armazenamento figuram entre os empreendimentos considerados estratégicos para os próximos anos.
A lógica mudou.
Exportar apenas grãos já não garante a mesma competitividade de alguns anos atrás.
Industrializar passou a significar proteção contra oscilações internacionais e geração de novas receitas.
Logística segue prioridade - Apesar das dificuldades econômicas, os investimentos em logística permanecem praticamente inalterados.
A conclusão da Ferrovia Estadual, a expansão da Ferronorte, a consolidação dos corredores do Arco Norte, os investimentos em terminais portuários e o fortalecimento da Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Cáceres continuam sendo considerados essenciais para reduzir o custo de exportação.
Hoje, especialistas apontam que a logística representa um dos principais diferenciais competitivos para Mato Grosso disputar espaço no mercado internacional.
Cada redução no custo do frete amplia a margem do produtor e aumenta a competitividade dos produtos brasileiros no exterior.
Crédito muda a forma de investir - O novo ambiente financeiro também alterou o perfil dos investimentos.
Com a redução relativa dos recursos subsidiados do Plano Safra, produtores passaram a recorrer com maior intensidade a instrumentos privados de financiamento.
Fiagros, Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), CPRs, operações de barter, fundos de investimento e linhas estruturadas ganharam espaço no financiamento das atividades produtivas.
Ao mesmo tempo, entidades do setor defendem mecanismos de garantia, como o Fundo Garantidor Agro (FGI Agro), para ampliar o acesso ao crédito em um ambiente de juros elevados.
Outra área que continua atraindo capital é a economia de baixo carbono.
Projetos ligados ao mercado de carbono, recuperação de áreas degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, agricultura regenerativa e rastreabilidade ambiental passaram a integrar o planejamento de grandes grupos econômicos.
Além de gerar receitas adicionais, essas iniciativas facilitam o acesso a mercados internacionais que passaram a exigir critérios ambientais cada vez mais rigorosos.
Investimentos ficaram mais seletivos - Nem todos os projetos, porém, avançam na mesma velocidade.
Especialistas observam que empreendimentos altamente dependentes de crédito subsidiado ou com retorno financeiro de longo prazo passaram por revisões.
A prioridade agora é concluir obras já iniciadas e concentrar recursos em investimentos considerados estratégicos para reduzir custos operacionais.
Projetos voltados exclusivamente à ampliação de área produtiva perderam espaço para iniciativas ligadas à eficiência, inovação e agregação de valor.
A mudança demonstra que Mato Grosso entrou em uma nova fase de desenvolvimento.
Durante décadas, a principal preocupação era produzir mais.
Agora, o desafio passou a ser produzir melhor, industrializar, reduzir custos logísticos, acessar novos mercados e diversificar as fontes de receita.
Nesse novo cenário, o volume de investimentos permanece elevado, mas segue uma lógica diferente: menos expansão horizontal e mais competitividade.
É essa estratégia que deverá definir a capacidade de Mato Grosso de manter sua liderança no agronegócio brasileiro em um mercado internacional cada vez mais exigente.