A combinação de margens cada vez mais apertadas nas lavouras de soja e milho, juros elevados e valorização do real frente ao dólar deve provocar uma retração de até 20% nas vendas de tratores e colheitadeiras em 2026. A projeção é da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que avalia que o mercado de máquinas agrícolas atravessa um dos momentos mais difíceis dos últimos anos.

O cenário preocupa especialmente Mato Grosso, maior produtor nacional de grãos e um dos principais mercados consumidores de máquinas agrícolas do país. O Estado concentra a maior área cultivada de soja, milho e algodão do Brasil, o que faz com que oscilações na renda do produtor rural tenham impacto direto sobre os investimentos em renovação de frota e aquisição de equipamentos.

Dados divulgados pela Abimaq mostram que, entre janeiro e maio deste ano, as vendas de tratores ao consumidor final somaram 16.199 unidades, queda de 9,5% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram comercializados 17.900 equipamentos.

A retração foi ainda mais intensa no segmento de colheitadeiras. Nos cinco primeiros meses do ano foram vendidas apenas 1.045 máquinas, frente às 1.719 negociadas no mesmo período do ano passado, redução de 39,2%.

Segundo o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq, Pedro Estevão, não há, neste momento, fatores capazes de reverter o cenário.

"O mercado continua muito difícil. Hoje acumulamos queda superior a 20% e não enxergamos nenhum gatilho que possa impulsionar uma recuperação. A expectativa é encerrar o ano com retração entre 15% e 20%", afirmou.

Na avaliação da entidade, a principal razão para a desaceleração está na perda de rentabilidade dos produtores rurais, especialmente daqueles dedicados ao cultivo de soja e milho.

"A rentabilidade caiu. Os preços das commodities estão em um patamar inferior ao observado nos últimos anos e a taxa de câmbio também penaliza o produtor, reduzindo sua capacidade de investimento", explicou Estevão.

Nos últimos ciclos agrícolas, produtores mato-grossenses vêm enfrentando uma combinação de custos elevados de produção, queda nas cotações internacionais da soja e do milho e aumento do endividamento, cenário que levou parte deles a adiar investimentos em tecnologia e renovação da frota de máquinas.

O desempenho do setor também depende do acesso ao crédito rural. Nesta terça-feira (30), o governo federal lançou o Plano Safra 2026/2027, destinando R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, valor ligeiramente superior aos R$ 516 bilhões disponibilizados no ciclo anterior.

Para a Abimaq, porém, o programa não deve alterar significativamente o comportamento do mercado.

Segundo Pedro Estevão, o novo Plano Safra mantém a mesma estrutura dos anos anteriores e representa uma política de continuidade.

"Não houve grandes mudanças, mas também não houve decepção. O plano é muito parecido com o do ano passado. É uma continuidade da política que vinha sendo adotada", avaliou.

A entidade considera positivo o esforço do governo em reduzir em um ponto percentual as taxas de juros em diversas linhas de financiamento, mas ressalta que os recursos destinados ao Moderfrota — principal programa voltado à aquisição de máquinas agrícolas — ficaram abaixo da expectativa do setor, com previsão de R$ 5,8 bilhões.

Mesmo assim, a avaliação é de que o Plano Safra não deverá agravar a retração do mercado.

"É um plano neutro. Não cria estímulos suficientes para aumentar as vendas, mas também não representa uma má notícia para a indústria. Em um ano difícil para o produtor, manter as condições já é um fator positivo", concluiu o dirigente.

Para Mato Grosso, onde a mecanização é uma das bases da competitividade do agronegócio, a desaceleração nas vendas de máquinas é vista como mais um reflexo do momento de cautela vivido pelos produtores, que priorizam a recomposição do caixa antes de realizar novos investimentos.