Mato Grosso consolidou ainda mais sua posição como maior produtor de milho do Brasil nos últimos cinco anos. O Estado ampliou área plantada, produtividade e produção, alcançando sucessivos recordes e fortalecendo sua importância no agronegócio nacional. No entanto, por trás dos números positivos da produção, os produtores enfrentam um cenário de rentabilidade cada vez mais apertada.

Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) mostram que a produção estadual saltou de 32,56 milhões de toneladas na safra 2020/21 para uma estimativa de 53,35 milhões de toneladas em 2025/26, crescimento superior a 63%. No mesmo período, a área cultivada passou de 5,84 milhões para 7,39 milhões de hectares.

O avanço foi impulsionado principalmente pelo aumento da produtividade. Segundo o vice-presidente Oeste da Aprosoja Mato Grosso, Gilson Antunes de Melo, os produtores elevaram significativamente o rendimento das lavouras.

“Trabalhávamos em torno de 100 sacas por hectare e chegamos agora a 120 sacas por hectare. Nossa produção já ultrapassa 50 milhões de toneladas e, em alguns anos, superou até mesmo a produção de soja”, destaca.

Apesar do desempenho recorde nas lavouras, o mesmo não ocorreu com os preços. Após atingir patamares históricos durante a pandemia e os períodos de oferta mais restrita, as cotações voltaram a recuar.

Em 2021, a saca de milho registrou média de R$ 71,14 e chegou a superar R$ 78 em alguns momentos. Em 2024, a média caiu para R$ 41,33 e, em 2026, permanece próxima de R$ 45,31 por saca.

“Nos últimos cinco anos saímos da casa dos R$ 30, chegamos a R$ 70, tivemos picos próximos de R$ 80 e hoje trabalhamos novamente na faixa dos R$ 40. É uma oscilação muito grande”, afirma Gilson.

A expansão da produção estadual ajudou a transformar Mato Grosso em uma potência ainda maior no mercado de milho, mas também contribuiu para pressionar os preços.

Além da safra recorde mato-grossense, o Brasil acumulou sucessivas colheitas elevadas nos últimos anos, ampliando a oferta do cereal e reduzindo o poder de negociação dos produtores.

Segundo o diretor financeiro da Aprosoja MT, Nathan Belusso, a pressão aumenta durante a colheita da segunda safra, período em que o mercado recebe grande volume de grãos.

“Historicamente, nessa época do ano, por conta do avanço da colheita do milho segunda safra, o excesso de oferta faz com que os preços tendam a cair”, explica.

Ele ressalta ainda que o déficit de armazenagem continua sendo um dos principais gargalos do setor.

“O custo para armazenar aumenta e, consequentemente, o valor pago pelas tradings e armazenadores acaba sendo menor”, acrescenta.

ETANOL - Uma das principais válvulas de escape para a produção mato-grossense tem sido a indústria de etanol de milho, setor que cresce rapidamente no Estado.

Atualmente, Mato Grosso concentra as maiores plantas de etanol de milho do país e se tornou referência nacional nesse segmento.

Segundo Gilson Antunes, as usinas devem consumir cerca de 16 milhões de toneladas de milho em 2026, volume equivalente a mais de 30% da produção estadual.

“Isso ajuda a equilibrar o mercado e dá maior segurança para o produtor”, afirma.

Se os preços perderam força, os custos seguiram o caminho inverso.

Grande parte dos insumos utilizados na agricultura é dolarizada, incluindo fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas, peças e combustíveis. Com a desvalorização do real nos últimos anos, produzir milho ficou significativamente mais caro.

O Imea aponta que o Custo Operacional Efetivo (COE) passou de R$ 3.381,94 por hectare na safra 2021/22 para R$ 4.806,17 em 2025/26, alta superior a 42%.

Já o Custo Total (CT) avançou de R$ 4.395,84 para R$ 6.725,91 por hectare no mesmo período, crescimento de aproximadamente 53%.

Os fertilizantes continuam liderando a composição dos gastos, respondendo por quase 30% dos custos operacionais.

Para o produtor Renato Tozzo, associado da Aprosoja no Vale do Arinos, a atual relação entre preço e custo é uma das mais difíceis dos últimos anos.

“Na minha visão, este está sendo o pior cenário dos últimos cinco anos. A margem está bastante apertada e os custos de fertilizantes, diesel e demais insumos continuam elevados”, afirma.

LUCRO ENCOLHE - O impacto dessa combinação aparece diretamente na rentabilidade das propriedades.

Segundo o Imea, o LAJIDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) caiu de R$ 2.278,34 por hectare na safra 2021/22 para R$ 683,18 em 2025/26.

Para a safra 2026/27, a projeção é ainda mais preocupante: apenas R$ 70,96 por hectare.

Na região de Itanhangá, o delegado coordenador da Aprosoja MT, Ivam Franceschet, calcula que os custos já consomem cerca de 100 sacas por hectare.

“Hoje gastamos em torno de R$ 4.300 por hectare para produzir. O diesel está caro, o frete também está pesado e todos os custos aumentaram. Atualmente conseguimos algo entre 15 e 20 sacas por hectare de lucro. O ideal seria trabalhar entre 25 e 30 sacas”, avalia.

A preocupação do setor é que a redução das margens comprometa investimentos futuros em tecnologia, fertilização e manejo, fatores que ajudaram Mato Grosso a alcançar os atuais níveis de produtividade.

Para Nathan Belusso, o preço do milho precisaria variar entre R$ 50 e R$ 55 por saca para garantir maior sustentabilidade financeira ao produtor.

“Hoje estamos trabalhando entre R$ 38 e R$ 44, muito abaixo da necessidade do setor”, afirma.

Mesmo diante das dificuldades, Mato Grosso segue como protagonista nacional da produção de milho. O desafio agora é transformar os ganhos de produtividade em rentabilidade, em um cenário marcado por custos elevados, preços pressionados e margens cada vez mais estreitas para o produtor rural.