Foram três anos de seca e três enchentes em curto espaço de tempo no Rio Grande do Sul. É o meio ambiente cobrando o que foi tomado da natureza, afirma o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, em entrevista.

A repetitividade desses acontecimentos elimina qualquer chance de negacionismo sobre as crises climáticas. E o clima, segundo ele, é o principal ativo dos produtores. A partir de agora, é evitar o pior, diz o ministro.

Voltando no tempo, Fávaro relembra a fase difícil para os produtores nas novas fronteiras agrícolas na década de 1980. Sem financiamento e sem custeio, o setor enfrentava uma infraestrutura precária no Centro-Oeste.

A situação era agravada ainda mais pelos planos econômicos, com congelamento de preços e importações de alimentos. Para o ministro, não há mais espaço para isso atualmente.

A presença brasileira no comércio internacional é consistente, e o país tem capacidade de participar ainda mais do fornecimento de alimentos para o mundo apenas com a substituição de áreas de pastagens degradadas pelo plantio de grãos.

Sobre a força que o setor agropecuário exerce no Congresso, Fávaro, senador licenciado, diz que, quando voltar ao Senado, assim como já faz como ministro, terá um olhar para os problemas contemporâneos.

P - O Brasil vive um período de fortes enchentes e secas. Como o sr. vê isso?

CF - Certamente estamos em uma crise climática. O meio ambiente está cobrando o que foi tomado dele. Veja o Rio Grande do Sul que, após três anos de seca, agora teve três enchentes em um curto período.

P - Mas muitos ainda não acreditam nessa crise.

CF - Os fatos acabam com o discurso negacionista. Já tivemos outras ocorrências, como a enchente de 1941 no Rio Grande do Sul, mas a periodicidade desses acontecimentos acaba com negacionismo.

P - Se nada for feito, serão fatos repetitivos?

CF - Não temos mais como negar. Precisamos agir rapidamente para estancar essas mudanças. Não tenho capacidade científica para dizer isso, mas não sei se é possível voltar atrás depois do que já fizemos. Precisamos agir para não complicar ainda mais a situação.

P - Isso não deveria ser uma preocupação do próprio produtor?

CF - Sim, o clima é nosso principal ativo. Não adianta nada termos equipamentos, ciência e sementes de última geração se vivermos em um deserto.

As forças representativas no Congresso parecem não estar muito preocupadas. O Senado amenizou a participação do setor no plano de mudanças climáticas nesta quarta-feira (15).
Sou senador licenciado e posso reassumir ou voltar para votar. Quero olhar à frente de meu tempo e assumir responsabilidades com consciência de que esse ativo é nosso. Como ministro, quero ser reconhecido como quem tem um olhar nos problemas contemporâneos.

P - Como vai o relacionamento com o Ministério do Meio Ambiente?

CF - Temos divergências, mas estamos indo de mãos dadas. Não é porque a União Europeia cobra que temos de preservar. Preservamos porque temos de cuidar de nossos ativos.

P - Quais as divergências?

CF - Tenho minhas posições, e as divergências são levadas para arbitragem na AGU (Advocacia-Geral da União), que tem a competência para avaliar conforme a regra. Por exemplo, o banimento dos pesticidas. Não posso simplesmente banir e precarizar a produção. Quero tempo para migrar para produtos mais sustentáveis, como biológicos, biodegradáveis e seletivos.

P - Como o governo pode ajudar nessa transição?

CF - Premiar quem faz o certo. Os outros 2% [percentual estimado pelo Meio Ambiente de quem desmata e faz grilagem de terra] são casos de Polícia Federal, Ministério da Justiça e Ibama.

P - Qual a responsabilidade da mão humana nessas catástrofes?

CF - Agora, evitar a piora. O Brasil tem esse potencial por meio dos combustíveis renováveis, aplicação do Código Florestal e adoção de boas práticas de produção.

P - Boas práticas?

CF - Fazer um perfil do solo de 40 centímetros com calcário, fertilizantes e muita matéria orgânica. O solo vai suportar mais a seca e absorver mais a água. Fatos comprovam que quem faz isso obtém 20% a mais de produtividade. É a bomba d’água da produção.

P - Está na hora de mudanças no Código Florestal?

CF - Já passamos dos dez anos e acho que sempre é bom repensar alguns pontos.

Quais as políticas previstas para o Rio Grande do Sul, após essa devastação provocada pela crise climática?

CF - Baixando as águas, o Ministério da Agricultura será transferido para o estado e se instalará, interinamente, em várias regiões. Não sei a fórmula, mas teremos de reestruturar tudo. Repensar o poder público no processo de continuidade.

P - Em 1989, o país produzia 71 milhões de toneladas de grãos. No ano passado chegou a 320 milhões. A que se deve isso?

CF - Logo após a Segunda Guerra Mundial, cada país buscou sua vocação. Uns, como Japão e Coreia do Sul, optaram pela tecnologia, outros, como o Brasil, encontraram sua vocação na produção de alimentos. A Embrapa foi essencial nessa evolução. Além disso, a criação da CTNBio e a regulamentação dos transgênicos no primeiro governo Lula, em 2003, deu novo impulso ao setor.

P - Há quatro décadas importava-se alimento e havia controle de preços.

CF - Isso não deverá ocorrer nunca mais. Achamos a nossa vocação e com um mínimo de apoio da gestão pública, o setor seguirá entre os grandes produtores e fornecedores mundiais. Até no trigo o país será um exportador com a tropicalização do cereal.

P - Qual deve ser a presença do governo?

CF - É importante, mas não para intervencionismo e regulação de mercado. Em junho de 2023, a saca de milho estava abaixo do custo de produção, e o governo adquiriu apenas 370 mil toneladas. Ao garantir preço mínimo, dá um sinal ao mercado.

P - É o caso do arroz?

CF - Sim, a importação não é para afrontar o produtor, mas para dizer ao especulador que o governo tem mecanismos para garantir estabilidade.
[Após a entrevista, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) suspendeu o leilão de compra de arroz importado marcado para esta terça (21). A operação buscava limitar os impactos nos preços após as enchentes no Rio Grande do Sul. A estatal não informou a razão da suspensão e disse que a nova data do leilão será publicada oportunamente].

P - O que permitiu evolução tão grande da produtividade nas últimas décadas?

CF - Ciência e tecnologia, principalmente com a presença do poder público nas pesquisas, o que permitiu a revolução no cerrado.

P - Quais os gargalos daquele período?

CF - O que mais inviabilizava a produção era a logística. Estradas ruins, custo elevados do transporte e preços baixos.

P - Quanto a incorporação de terra pela agropecuária afetou o meio ambiente?

CF - Não há contrassenso entre produzir e preservar, mas poderia ter havido uma orientação mais assertiva com a presença do Estado.

P - A liderança brasileira no mercado internacional é consistente?

CF - É muito consistente, e o Brasil não precisa mais de supressão vegetal para ampliar sua presença. Nenhum lugar do mundo tem capacidade de ampliar essa liderança com tanto volume e tanto espaço como nós. São 80 milhões de hectares de áreas de pastagem degradadas que podem ser incorporadas para grãos.

P - Como enfrentar as barreiras comerciais com relação a questões ambientais?

CF - Precisamos de pouco ajuste em termos ambientais. A ministra Marina Silva diz que menos de 2% dos produtores brasileiros transgridem as leis. Pelo menos 98% têm boas práticas. Para os transgressores, todo o rigor da lei.

P - O acordo Mercosul-União Europeia é importante?

CF - Queremos muito a formalização desse acordo. É bom para nós e para eles. Seremos mais competitivos vendendo nossos produtos para eles e eles para nós.

P - Mas parece um acordo cada vez mais difícil.

CF - Não vamos ficar chorando. Podemos ampliar mercado com o Sul Global. China, Japão, Índia, outros países da Ásia, Oriente Médio e Brics. São regiões com potencial econômico e demanda.

P - As barreiras vão aumentar?

CF - Vão tentar, mas elas são limitantes porque causam mal para eles mesmos. Por muito pouco que tentaram exigir dos produtores europeus, houve uma grande paralisação. Além disso, pesa na inflação.

P - Se o agro vai bem por que alguns setores não evoluem? O leite é um deles.

CF - É uma atividade generalizada nos 5.572 municípios brasileiros, mas com uma disparidade tecnológica muito grande. É uma atividade que quem produz menos recebe menos, devido à logística.

P - O arroz e o feijão também estão na pauta de discussão. Não deveria haver uma política específica de médio e longo prazo?

CF - Além do arroz, eu acrescentaria trigo e milho. No Plano Safra, vamos lançar contratos de opções regionalizados, com valor superior ao mínimo. Se o preço estiver acima, o produto vai para o mercado. Caso contrário pode formar estoques reguladores do governo.

P - O que vem de novas tecnologias pela frente?

CF - É um desafio. A Embrapa não pode viver dos troféus que já ganhou. Ela tem de ter o espírito de nascer de novo. Precisamos de um modelo para ser levado ao Congresso para apoiar todas as esferas da empresa. Com milhares de patentes registradas, a Embrapa recebe apenas R$ 30 milhões de propriedade intelectual por ano, valor pago em royalties por ano por apenas um produtor de sementes.

P - Mas tem recursos?

CF - A empresa não pode mais dizer que não tem recursos financeiros. Em março, na busca do déficit zero, os ministérios do Planejamento e da Fazenda bloquearam parte do orçamento, mas isso é momentâneo. A empresa não tinha dinheiro para investimentos, mas agora terá R$ 1 bilhão do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

P - Quais os desafios da próxima década?

CF - A logística é um dos principais. Só se fala no escoamento da produção dos 320 milhões de toneladas de grãos, mas a safra brasileira é muito maior. Supera 1 bilhão de toneladas quando acrescidos cana-de-açúcar, café e frutas. Se a safra crescer 5% ao ano, serão 50 milhões de toneladas a mais anualmente.