Inédito. Ambicioso. Ousado. Estranho para o produtor rural e em fase de construção de caminho por parte da Bayer, que o promove.
Assim é o programa PRO Carbono, de boas práticas agrícolas para melhor produtividade e sequestro de carbono no solo, e em curso desde 2020 em 10 países, com a participação de 2.600 produtores, dos quais 1.800 no Brasil, onde cultivam 220 mil hectares em 16 estados.
Seus avanços foram apresentados em Cuiabá, nesta terça-feira (13).
Pesquisadores detalharam todas as fases do programa, num verdadeiro raio X, acompanhado por 300 produtores mato-grossenses participantes.
A Bayer limitou-se a informar que o programa é ancorado pela Carbono Bayer.
Porém, o empresário Carlos Ernesto Augustin, participante do PRO Carbono, com campos sementeiros e lavouras na Serra da Petrovina, no polo de Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá), e que figura entre os 10 maiores produtores de semente do Brasil, revelou que a empresa investe, anualmente, US$ 12 milhões para levá-lo adiante no Brasil, e que, em Mato Grosso, 300 produtores participam voluntariamente.
Entusiasta da iniciativa, Augustin aposta que a iniciativa será importante ferramenta para a "necessária redução da emissão de gases de efeito estufa".
PRO Carbono não quer reinventar a roda, mas fazê-la funcionar em sintonia com o mundo.
Uma série de mudanças nos tratos culturais e a manutenção e avanço das práticas e regras legais serão suficientes para tanto.
Fábio Passos, líder do Negócio de Carbono da Bayer para a América Latina, sintetizou os avanços chamando-os de onda, e enumerou dois: o plantio direto e a soja transgênica.
Em suma, o executivo levou o programa ao bê-á-bá, que pode ser entendido assim, no caso de Mato Grosso, que pertence à Amazônia Legal e que, passo a passo, quer seja por imposição legal ou evolução da ciência agronômica, alcançou uma agricultura, que se ainda não é sustentável, está bem próximo disso.
A roda que não precisa de reinvenção girava assim em 1970, quando começou o processo migratório para ocupação do vazio demográfico amazônico, motivado pelo bordão institucional do Governo militar: integrar para não entregar.
Naquela década, a maior parte mato-grossense não tinha regularização fundiária e começaram a chegar colonos de todas as partes do país, mas notadamente do Sul.
Não havia Código Florestal e o uso do solo era regulamentado pelo Estatuto da Terra, de 1964, que permitia o corte raso da floresta e do cerrado em 50%.
Paralelamente a isso, o posseiro, para receber a titulação de sua área, tinha que comprovar seu desmatamento.
E, como se tudo isso ainda não bastasse, a Sucam, antecessora da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), orientava os posseiros e proprietários de áreas rurais a desmatarem as margens dos rios e córregos para eliminar o mosquito anofelino transmissor da malária.
Em Mato Grosso, o programa tem a participação de produtores rurais de todas as regiões, e no evento havia predominância de jovens, filhos e netos de pioneiros na agricultura mecanizada mato-grossense – é o que se chama reforma agrária de travesseiro ou hereditária.
A sucessão familiar é facilitadora para esse tipo de programa, pois as novas gerações do campo têm em sua composição agrônomos, veterinários, zootecnistas, engenheiros florestais, administradores de empresas, advogados e outros profissionais liberais que exercem suas atividades na cadeia do agronegócio.
Mato Grosso descobriu o cultivo da soja em 1973, com uma pequena e rústica lavoura, na Fazenda São Carlos, do agricultor Adão Riograndino Mariano Salles, em Rondonópolis.
Pequenas lavouras do município espalharam-se por todas as regiões, mudaram hábitos sociais, desenvolveram municípios, resultaram na fundação de Sapezal (480 km a Noroeste da Capital) pelo empresário André Antônio Maggi, e a cadeia dessa leguminosa tornou-se a mais importante peça da economia regional.
Com mais de 10,9 milhões de hectares cultivados, produtividade de 3.735 sacas por hectares e safra superior a 38 milhões de toneladas, a agricultura é o carro-chefe do desenvolvimento mato-grossense.
O salto de 12 mil hectares de soja, cultivados em 1980 para quase 11 milhões na última safra, não foi obra do acaso.
A dimensão dessa atividade, seu impacto no meio ambiente e a garantia de mercado para a mesma, no amanhã, livre de entraves ou barreiras ambientais contribuíram para a criação do PRO Carbono.
O que aconteceu no trajeto entre as primeiras lavouras de soja e o hoje?
Mudanças de regras ambientais, avanços agronômicos e as práticas culturais do produtor.
O velho Estatuto da Terra cedeu lugar ao Código Florestal.
A antropização da floresta baixou de 50% para 20%, e no cerrado, de 50% para 35%.
Ao invés de fomentar desmatamento, tanto o Incra quanto o Ibama e órgãos estaduais monitoram o campo em tempo real, por meios de satélites a serviço do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); ao contrário de ontem, a rígida legislação ambiental estadual protege as matas ciliares.
O produtor descobriu que, ao invés de uma safra, na mesma área poderia cultivar duas lavouras no mesmo ano, pelo sistema de rotação de cultura.
Dessa descoberta, o campo lança nos mercados nacional e internacional, além da soja, a maior produção de milho e algodão do Brasil.
Porém, a viabilização dessa descoberta foi facilitada com o plantio direto, a qualidade da semente quer seja convencional ou transgênica, a aplicação do defensivo certo na dosagem correta, a criação do vazio sanitário.
O avanço da produção também foi facilitado pela criação da Lei Kandir, em 1966, que dentre outros benefícios desonera commodities agrícolas para exportação; melhoria da malha rodoviária; e a construção da Ferrovia Senador Vicente Vuolo, da Rumo Logística, que escoa safras para o porto de Santos (SP), e em Rondonópolis opera o maior terminal de cargas agrícolas da América Latina.
A macroprodução mato-grossense despertou as mais diversas manifestações continentes afora.
Afinal, é um dos pilares da política de segurança alimentar mundial.
O PRO Carbono se sustenta somente com a necessidade da drástica redução do efeito estufa e, aparentemente, essa é a proposta da Bayer.
Mas,s há um componente do mercado internacional que não pode ser desconsiderado: cada vez mais, a União Europeia, Reino Unido e o Japão exigirão rastreabilidade dos alimentos que importam.
O programa, mesmo em fase de execução, para ser concluído em aproximadamente mais três anos, atenua a pressão de importadores, porque ainda que o mesmo não tenha números finais para apresentação, os que constarem em seus catálogos certamente serão favoráveis, avalia Túlio Cerqueira, agrônomo que presta consultoria a várias agropecuárias.
O pesquisador da Embrapa, Cristiano Alberto de Andrade, é otimista quanto ao programa.
Andrade pondera que a agricultura (mato-grossense, que estava no enfoque) seja "parte da solução da emissão de gases do efeito estufa".
Isso porque a lavoura tanto lança (gases) quanto o sequestra.
Em outras palavras, para a pesquisadora Estefânia Martinelli, da Bayer, a lavoura é parte de uma engrenagem movida por tratados internacionais.
Em sua participação no painel do evento, Martinelli citou a Eco-92 no Rio de Janeiro e o Protocolo de Quioto, em 1997, nos quais países desenvolvidos assinaram compromisso com a redução do lançamento de gases de efeito estufa.
Sobre acordos, ela destacou que em 2015 o Brasil e outros 194 países assinaram o Acordo de Paris, contra o desmatamento e para conter o aquecimento global. Brasília firmou compromisso de reduzir o lançamento de gases do efeito estufa em 35% até 2025, tomando por marco temporal o ano de 2005, e de 40% até 2030, pelo mesmo referencial.
A pesquisadora não citou a realidade da emissão atual, mas lembrou que na COP 26, em Glasgow, em 2021, o vice-presidente Hamilton Mourão assinou compromisso comum a todos os participantes, de que o Brasil reduziria em 50% as emissões até 2030 e zeraria o desmatamento ilegal até 2028.
Em resumo, com boas práticas agrícolas será possível alcançar maior produtividade e emitir menos gás de efeito estufa.
Além disso, PRO Carbono mostrará ao mundo que a agricultura brasileira tem empenho na redução dos gases de efeito estufa.
Assim, 3.600 grandes empresas compromissadas com a redução desses gases se sentirão mais confortáveis vendendo insumos e comprando produtos do agronegócio.
Enquanto isso, a Bayer, em parceria com a Embrapa e outras empresas, continuará em campo pesquisando e monitorando talhões em propriedades de produtores rurais em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Paraná, Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, acompanhando um projeto que contribuirá para que, no amanhã, a agricultura seja vista somente como atividade que leva alimento à mesa, que gera empregos e renda, e não da forma satanizada, como é vista por parcela da população.
FOGO É DESCARTADO POR PRODUTOR RURAL - Em Mato Grosso, no passado, o fogo foi amplamente empregado por pecuaristas e agricultores.
Com os primeiros para a chamada limpeza de pasto, que consistia em queimar a invernada para matar as pragas e renovar o capim com o rebroto.
Pelos outros, para a coivara, que é a prática de se amontoar galhos, palhada e todo restante de vegetação para queimá-los – esse costume permanece em comunidades tradicionais, parcelas da reforma agrária e em áreas quilombolas.
No agronegócio, não há espaço para fogo, mas o mesmo sempre é registrado por conta de fatores externos.
A pecuária o aboliu de vez e a lavoura mecanizada nunca o empregou.
Ele ainda acontece, principalmente em propriedades vizinhas a rodovias, por conta de tocos de cigarros jogados na área ou faíscas de escapamentos de caminhões a diesel com a bomba injetora desregulada.
Também pode ter origem no emprego de equipamentos elétricos ou, até mesmo, por reflexo do sol sobre latas ou vidros. Há casos de raios que provocam incêndios.
O produtor rural tem conhecimento de que o fogo empobrece o solo, na medida em que queima matéria orgânica e microrganismos.
O pecuarista também entende do mesmo modo.
Mesmo assim, Mato Grosso sempre figura entre os estados com maior número de focos de calor e incêndios florestais, mas sobre essa realidade é preciso observar que a maioria é notificada em reservas permanentes, terras indígenas, áreas de assentamentos e em propriedades à margem de rodovias.
O combate ao fogo em Mato Grosso, todos os anos, é tema de campanha de prevenção e de orientação sobre combate a incêndios florestais e de palestras promovidas pelo Corpo de Bombeiros Militar, sindicatos rurais, sindicatos de trabalhadores rurais, Empaer, prefeituras e entidades ambientalistas.