Bastaram apenas 15 dias do mês de março para fazer o etanol hidratado perder a competitividade econômica sobre o litro da gasolina.

O "queridinho" dos motoristas da Grande Cuiabá não é mais vantajoso, mesmo em um Estado que oferta o biocombustível a partir de duas matrizes: da cana-de-açúcar e do milho.

Ao atingir o teto de cerca de R$ 4,15 a R$ 4,19 nas bombas, o litro excede à continha básica de que a vantagem só vale quando o valor representar até 70% do que custa a gasolina no varejo.

Desde a virada do mês, o litro vem acompanhando as seis altas seguidas da gasolina no mercado brasileiro e nesse período aumentou quase R$ 1, já que começo de março estava fixado em cerca de R$ 3,21 a R$ 3,27.

Em média, nos postos de Cuiabá e Várzea Grande o valor de bomba ao etanol varia entre R$ 4,15 a R$ 4,19.

O da gasolina está em cerca de R$ 5,65 a R$ 5,67.

Para descobrir a viabilidade econômica entre os dois combustíveis basta dividir o preço do litro do etanol pelo o da gasolina.

Se o resultado for inferior a 0,70%, o biocombustível é o melhor para abastecer.

Se for maior que 0,70%, então a gasolina é melhor.

Na atual relação dos postos localizados nas duas cidades, o resultado é de 0,73%, o que excede ao percentual recomendado.

Essa avaliação é necessária, conforme especialistas, porque o etanol rende menos quando comparado à gasolina, ou seja, roda-se menos quilômetros com o etanol do que com a gasolina. Em geral o consumo (a queima) do etanol é 30% superior.

Há mais de dez anos, o etanol se mantinha vantajoso sobre a gasolina no Estado e sempre disputando diretamente com São Paulo, o menor valor médio de bomba do País.

Além da vantagem perdida, o etanol passou a pesar, e muito, sobre o orçamento das famílias, especialmente daquelas que têm seu rendimento mensal vinculado ao ‘trabalho com o carro’.

Um veículo de passeio, cujo tanque tem em média 45 litros, custa hoje R$ 186,75 para completar com o etanol, considerando o litro a R$ 4,15. No começo do mês, a R$ 3,25, o biocombustível, para os mesmos 45 litros, custava R$ 146,25, uma diferença de R$ 40,5 em apenas 15 dias.

“Geralmente, o brasileiro se torna autônomo após perder o emprego com carteira assinada. Eu sou uma dessas pessoas que sai todo dia para trabalhar, que depende 100% do carro e que não tem qualquer benefício. Não fosse isso, trabalhamos sob risco sanitário e desembolsando mais e mais a cada semana para trazer alimento para dentro de casa. Tá difícil trabalhar com carteira assinada, trabalhar por conta. Tá difícil mesmo é trabalhar”, desabafou o motorista de Aplicativo, Jonas Meira.

“Quando vi o etanol acima de R$ 4 eu não acreditei, de verdade. Achei que olhava para a tabela da gasolina”, completou.

Sobre o desembolso maior a cada ‘tanqueada’, Meira observou que são cerca de R$ 40 a mais por abastecida completa. “Duas dessa na semana, são quase R$ 100 que vão embora”, disse.

A servidora pública Marta Santos se surpreendeu ao saber que o etanol não é mais vantajoso sobre a gasolina.

“Há tanto tempo nos habituamos a abastecer com o etanol que funcionamos no automático. Eu achei que nunca o Estado perderia esse ‘status’ em relação à gasolina, mesmo com as altas. Achava que a majoração da gasolina seria sempre maior e que isso manteria o etanol na faixa de até 70%”, afirmou. O

Procon de Várzea Grande, por exemplo, chegou a encontrar posto em que a relação etanol x gasolina atingiu 76%.

A contadora Maria Alice Costa diz que não consegue entender a elevação do preço do etanol.

“Até esses tempos falavam na abundância do combustível aqui no Estado porque hoje ele é feito através do milho e não apenas de cana. As entidades que representam o setor sempre disseram, nessa época do ano em que algumas altas eram sentidas, que nunca houve entressafra de etanol, porque a produção sempre superou a demanda, ou seja, produzimos mais do que consumimos. Que vantagem a população de Mato Grosso tem em viver no maior produtor agrícola do País?”, questiona.

A alta do etanol, conforme especialistas, é resultado de vários fatores internos e externos, como a alta dos custos de produção, puxados pela elevação do óleo diesel e da valorização cambial, e ainda da movimentação natural do mercado com as altas da gasolina.

O etanol, sendo uma commodity, sofre influência direta da cotação do dólar, bem como de outra commodity, a do açúcar no mercado internacional. Fora isso, houve grande demanda por álcool em gel, como impacto direto da pandemia, problemas climáticos sobre a safra da cana e super valorização da saca do milho.

Como sempre frisa o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de Mato Grosso (Sindipetroleo), as revendas repassam as altas recebidas das distribuidoras e cada valor de bomba se estabelece conforme as planilhas de custos das empresas.

Muitas vezes, altas são represadas para não perder o volume de vendas e fazer caixa. Somente nesse ano, por exemplo, já foram seis aumentos de valores autorizados pela Petrobras à gasolina e cinco ao óleo diesel.

TRIBUTOS – A cadeia de tributos que incidem sobre os combustíveis onera, e muito, o valor final ao consumidor.

Mais de um quarto do preço de bomba é imposto como PIS/Cofins, ICMS e Cide.

Um decreto da Presidência da República, o de número 10.634, de 22 de fevereiro desse ano, não traz alívio ao consumidor, mas traz obrigação aos postos: a de fixar de forma bem visível e informar aos consumidores todos os valores que compõe o custo final do litro na bomba.

Nova Placa Obrigatória segue modelo indicado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

As informações sobre as estimativas de tributos devem estar em painel afixado em local visível e deverá conter o valor médio regional no produtor ou no importador, o preço de referência para o ICMS, que é um imposto estadual que incide sobre mercadorias e serviços, inclusive combustíveis, o valor do ICMS, o valor das contribuições para o PIS/Pasep e da Cofins, que são impostos federais incidentes sobre os combustíveis e e o valor da Cide, outra contribuição federal sobre a importação e a comercialização de petróleo, gás natural, derivados e álcool etílico combustível.