O médico veterinário, Roberto de Oliveira Roça, formado pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), resumiu o tema ao dizer que bem-estar animal pode ser entendido de várias formas, sendo que uma delas é quando você elimina ou minimiza os efeitos negativos na criação do animal, como dor, medo e desconforto. "Veja bem, você pode minimizar, mas é difícil eliminar todas essas condições. A dor pode ser minimizada, mas o medo já é mais complicado, pois como você elimina o medo dos animais?".
Em seguida, o médico veterinário destacou que o bem-estar animal é caracterizado pela presença de efeitos positivos como felicidade, satisfação, conforto e saúde. "Além de cinco pontos que podemos elencar aqui, chamadas de ‘Cinco Liberdades’: a fisiológica, ambiental, sanitária, comportamental e psicológica".
O doutor explicou que por liberdade fisiológica entende-se o acesso do animal a alimento e água de boa qualidade, para que ele possa viver sua vida em toda sua plenitude. A ambiental é aquela onde o animal pode viver em local que reproduza com muita proximidade o seu habitat natural. "A sanitária é uma das mais importantes, pois devemos criar estes animais em ambiente sadio, sem doenças, sem problemas de saúde".
A comportamental se dá quando se permite ao animal se expressar, externar o comportamento natural de cada espécie. "A liberdade psicológica é onde prezamos pela manutenção dos estados mentais. Aqui, eles devem ser preservados”.
Roça explicou ainda que sem estes cuidados ocorrem perdas econômicas. E para fazer a chamada ‘transformação do músculo’ – ou seja, passar do animal para o alimento, a carne, certos procedimentos, com o os elencados acima, devem ser respeitados.
"Esse caminho de transformação do animal em alimento é onde devemos ter maior cuidado em relação ao bem-estar animal", observou Roça. E completou: "Do apartamento dos animais ao embarque, passando pelo transporte a sua chegada ao frigorífico, o abate e o processamento da carne, tudo isso é importante que nós tenhamos um produto de qualidade na mesa do consumidor".
Participaram da condução da Live o gerente de Relações Institucionais da entidade, Nilton Mesquita, e os diretores da Celso Bevilaqua e Wallace Gonçalves.
HUMANITÁRIO X LUCRATIVIDADE - A relação entre o abate humanitário e a lucratividade também foi tratada durante a webinar. Segundo Roça, abate humanitário é aquele caracterizado pelo conjunto de procedimentos técnicos e científicos que garantem o bem estar dos animais desde o embarque na propriedade rural até a operação de sangria no matadouro-frigorífico.
O abate humanitário e o bem estar animal tem relação direta com a lucratividade, pois se não forem obedecidos tais requisitos a carne não é considerada de qualidade, e isso diminui seu mercado na cadeia de produção da carne bovina.
"Nos países desenvolvidos há uma demanda crescente por estes processos, que objetivam reduzir sofrimentos inúteis ao animal a ser abatido. O essencial é que o abate de animais seja realizado sem sofrimentos desnecessários e que a sangria seja eficiente. As condições humanitárias não devem prevalecer somente no ato de abater e sim nos momentos precedentes ao abate, como o transporte", explicou Roça.
PERDAS NO ABATE - Nesse tópico, o doutor citou alguns dos seus trabalhos, nos quais aponta que aspectos mais práticos e objetivos relacionados ao transporte, alojamento, descanso e manejo do pré-abate dizem respeito à quantificação das contusões, que podem ser observadas nas carcaças dos animais abatidos. "Estas acabam por gerar perdas econômicas diretas e indiretas, tais como desfiguração de cortes musculares e depreciação das carcaças".
Já as indiretas estão ligadas ao estresse, envolvendo a qualidade do produto, aos serviços executados para limpeza e à vida de prateleira do produto. Várias situações estressantes no transporte, como freadas e aceleradas, podem influenciar na qualidade da carne e da carcaça.