O grande desafio das famílias do campo é manter os jovens no meio rural. Em
busca de estudo e empregos melhores, a maior parte da população mais nova acaba
migrando para as grandes cidades do país.
O último Censo Agropecuário mostra que, quem vive no campo, está envelhecendo.
Cerca de 60% dos moradores da zona rural tem entre 30 e 59 anos e apenas 5% tem
menos de 30 anos. O levantamento indica tendência do jovem de deixar o trabalho
na roça pelo emprego na cidade.
Mas existe também quem faça o caminho inverso. São profissionais qualificados,
que gostam de tecnologia e que estão conseguindo bons empregos em regiões onde o
agronegócio é forte.
Em Goiás, no município de Rio Verde, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural
(Senar) do estado auxilia produtores rurais no treinamento de seus funcionários,
desde a lida com o maquinário até a segurança do trabalho.
"Aquela história ‘não quer estudar, você vai para a roça trabalhar’ mudou",
diz o instrutor do Senar Maxwell Gomes.
"Hoje, se você quer vir para roça trabalhar, quer vir para o agro, quer vir
para a fazenda trabalhar, vai estudar e se capacitar muito porque a tecnologia
chegou e chegou com força", completa Gomes.
Um exemplo é a evolução das máquinas agrícolas, que ajudou a melhorar muito o
trabalho no campo. Os tratores mais modernos são comandados automaticamente, tem
sistema de GPS, amortecimento no banco, ar condicionado e consegue arar 10
hectares em apenas 2 horas.
"Tem que ter um estudo. Não é qualquer pessoa que sobe numa máquina dessa e
já sai operando", afirma o operador Silas Marcos da Silva, de 38 anos.
Silva conta que já fez 12 cursos na fazenda, onde mora com a esposa Franciele,
de 34 anos, que também é funcionária da propriedade, e os dois filhos: Guilherme,
de 10, e Davi, de 3 anos.
O jovem casal que decidiu viver no campo é registrado, tem todos os direitos
trabalhistas e plano de saúde. Juntos, conseguem um salário de cerca de R$ 5 mil
por mês e ainda contam com casa, energia e água de graça.
A fazenda onde a família trabalha tem 200 funcionários, 40% tem entre 26 e 35
anos, 16% são mulheres. Quem coordena tudo isso é a gerente geral e agrônoma
Milena Oliveira, de 32 anos.
"Essa história, por exemplo, de que campo é peão, é gente que vai para o meio
do mato, não tem nada a ver. A gente é moderno, a gente mexe com tecnologia até,
às vezes, mais avançada do que dentro da cidade", diz Milena.
Ela não revela salário, mas admite que ganha acima de R$ 10 mil por mês, mas
o grande orgulho mesmo é representar a nova geração do campo, que está adaptada
a novas tecnologias e conhecimentos e, acima de tudo, conserva a essência de
viver na roça.
Sucessão e preparação
Outros estados que são referência no agronegócio também investem no futuro da
atividade.
Em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul, o auditório do parque de exposições da
cidade reúne mais de 300 jovens: são herdeiros de agricultores e pecuaristas,
veterinários, agrônomos e estudantes. No palco, jovens lideranças do setor. Na
pauta, sucessão familiar e o futuro do agronegócio.
"Meu propósito é honrar minha família que trabalhou no setor agropecuário e
diversas outras que estão aqui, porque o trabalho deles fez com nosso setor
agropecuário hoje fosse referência mundial não só de produção como de
preservação", afirma a agrônoma Stéphanie Ferreira, de 26 anos.
Mesmo sendo filha de pecuarista, Stéphanie buscou independência financeira
desde o primeiro ano da faculdade. Hoje, após 5 anos de formada, ganha R$ 6 mil
por mês dando consultoria em fazendas da região.
A jovem diz que existem muitas possibilidade de emprego para os mais novos no
campo.
"A gente vê que existe uma demanda muito grande. Não só nessa questão de
sucessão dentro da propriedade, mas, também, nas outras áreas: dentro de
empresas que trabalham com agro, instituições que trabalham com agro... Então,
absorve (contrata) muito", explica.
A 320 km de Três Lagoas, em Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, o
Globo Rural conheceu outra jovem do agronegócio: Roberta Maia, de 27 anos,
formada em administração.
Ela está no processo de sucessão da fábrica e distribuidora de sal mineral do
pai, Roberto Maia, de 68 anos.
"Eu achava que, para eu atuar, eu tinha que fazer medicina veterinária,
zootecnia, agronomia... e, na faculdade, eu vi um outro cenário. É uma coisa que
envolve muita paixão, muito amor, a história da minha família", diz.
Na empresa, são 27 funcionários que produzem 40 produtos diferentes com base
no sal mineral para pecuária. Eles vendem 38 mil sacos por mês para cerca de 800
clientes, a maioria do pantanal sul-mato-grossense.
Estágio com quem sabe
Além disso, Roberta também coordena esse grupo de jovens da Federação da
Agricultura de Mato Grosso do Sul (Famasul). Uma vez por semana, eles se reúnem
para traçar estratégias de como motivar, estruturar e levar conhecimento para a
nova geração do setor no estado.
Faz parte desse grupo o agrônomo Fábio Camargo, de 31 anos. Ele é um caça
talentos do campo.
Quando descobre um jovem estudante com algum diferencial, leva o nome para
Fernando Martins, dono de uma empresa de agricultura de precisão, que seleciona,
indica e mantém estagiários em fazendas por todo o Brasil.
Os estagiários ficam de 3 a 5 meses nas propriedades, recebem ajuda de custo
de R$ 500, transporte, moradia e alimentação, há mais de 300 candidatos na fila,
hoje há 60 vagas.
O jovem Wellington Machado, de 18 anos, foi aprovado no programa de estágio.
Ele faz curso técnico em agronegócio em Santa Catarina, deixou a cidade natal
para passar 6 meses em uma fazenda de agricultura e pecuária em Mato Grosso do
Sul.
Ele mora no alojamento da fazenda com outros estagiários, tem internet e
televisão, e, aos finais de semana, roda de viola e tereré, uma bebida típica do
Sul que lembra o chimarrão – a diferença é que a erva-mate é misturada com água
gelada em vez de água quente.
Na fazenda de 3.000 hectares, o catarinense teve contato com pecuária de
elite, melhoramento genético, noções do cultivo de soja, milho e aprendeu a
pilotar maquinário moderno como um pulverizador, que custa quase R$ 1 milhão.
"Cada coisa, cada dia, cada segundo que eu estou aqui eu estou aprendendo
alguma coisa", comemora.
A fazenda que aceitou o programa de estágio é do pecuarista Arthêmio Olegário,
de 81 anos.
"O que eu aprendi com meu pai eu tento passar para eles. O agricultor ganha
porque ele tem um braço a mais para ajudar e as eles ganham porque daqui
capacitado pra muita coisa", explica
O setor agropecuário vem investindo bastante no futuro da mão de obra no
campo. Um exemplo é o Centro de Excelência em Bovinocultura, uma parceria da
Confederação de Agricultura e Pecuária (CNA) e o Senar.
A instituição de ensino ficou pronta em agosto do ano passado, para atender a
demanda crescente de profissionais qualificados nas propriedades rurais. O curso
técnico dura dois anos e é de graça.
Os primeiros alunos vão se formar em junho de 2020, são 170 jovens e a
demanda de mercado é tão grande que a expectativa é que todos saiam daqui com o
emprego garantido.
Os alunos têm aulas de zootecnia, nutrição animal, comunicação e relações
interpessoais. O salário médio de um técnico agropecuário formado é de R$ 3 mil.
"Nós temos uma demanda cada vez maior de alimento, então, é um ambiente bastante fértil e produtivo para novas contratações e para novas oportunidades", diz o superintendente do Senar em Mato Grosso do Sul, Lucas Galvan.