Basta uma moeda a mais para que milhões de animais de produção tenham uma
vida melhor antes de virarem alimento em redes de fast food do Brasil, defende
campanha lançada na quarta-feira (16) pela organização internacional Proteção
Animal Mundial, que toma como base estudo comparativo de custos de criação de
frangos no país.
Segundo a entidade, ONG anteriormente conhecida como Sociedade Mundial de
Proteção Animal, um sanduíche de uma rede de fast food no Brasil que usa frango
criado com alto nível de bem-estar sai R$ 0,25 mais caro que aquele que contém
carne de um animal criado em condições que estimulam crescimento acelerado e
alta concentração de animais por metro quadrado.
A pesquisa, realizada em parceria com a consultoria internacional IHS Markit,
analisou custos fixos e variáveis de diferentes sanduíches de carne de frango e
outros produtos de frango como nuggets. Segundo o levantamento, a carne de
frango representa entre 8% e 11% do custo total do produto.
"O Brasil não tem legislação específica sobre bem-estar de animais de
produção e aí ficamos à mercê de quem compra os produtos. Quem impulsionará a
mudança é quem consome", afirmou à Reuters a coordenadora de bem-estar animal na
Proteção Animal Mundial no Brasil, Paola Rueda.
A campanha da Proteção Animal Mundial é lançada em um momento de crescimento
no número de consumidores que se declaram como vegetarianos ou que têm interesse
em produtos alternativos à carne animal.
Empresas como Fazenda Futuro, Superbom, Seara e Marfrig lançaram este ano
produtos à base de plantas alternativos a itens como hambúrgueres de carne de
boi e bife de frango, de olho em um mercado que está movimentando bilhões de
dólares nos Estados Unidos.
"Nenhuma rede fast food hoje no Brasil tem compromissos de aquisição de
produtos que zelam pelo bem-estar dos animais. Estamos procurando
comprometimentos no Brasil das grandes redes internacionais, que lá fora têm
compromissos firmados", acrescentou ela, referindo-se a frango de corte e
citando como exemplos redes como KFC , Burguer King e Subway.
Crescimento acelerado
Rueda comentou que atualmente o tempo médio de crescimento dos frangos no
Brasil até o abate é de 42 dias, ganhando 65 gramas de peso por dia. Segundo ela,
essa velocidade causa uma série de problemas aos animais e prejuízo às próprias
granjas, uma vez que o desenvolvimento acelerado dos frangos gera dores crônicas
e até fraturas, o que leva ao descarte.
"Hoje, o frango cresce muito rapidamente por causa de melhoramentos
genéticos, mas as articulações não aguentam essa velocidade de crescimento
muscular. Um dos nossos pontos é que esses animais tenham um crescimento
saudável, um pouco mais lento, passando de 42 para 52 dias antes do abate",
disse Rueda.
Espaço de criação
Além do crescimento acelerado, a entidade também cita um quadro de aumento na
densidade das granjas, que podem chegar a destinar um espaço menor que uma folha
de papel A4 para cada frango viver.
O pedido da Proteção Animal Mundial é para uma redução na média de animais
por metro quadrado de 11 para 8,5. Essa redução, além de dar mais espaço às
aves, ajudaria, junto com a desaceleração no crescimento, a reduzir o nível de
estresse dos frangos, fortalecendo o sistema imunológico dos animais, disse
Rueda.
"Animal sem estresse crônico fica menos sujeito a ficar imunossuprimido e a
possibilidade das bactérias se reproduzirem é menor", disse ela, citando a
salmonella como exemplo.
Nas contas da entidade, incluir cuidados como instalação de poleiros e fardos
de feno nas granjas e garantir seis horas contínuas de escuro por dia para
descanso adequado das aves, custariam 38 centavos de real a mais por quilo de
ave viva.
"A ideia aqui não é defender a criação de frango solto, o que geraria um
custo absurdo para os produtores... O que o estudo mostra é que se mexer em
todos esses outros aspectos, o bem-estar dos animais melhora muito e o custo não
é tão caro."
O que os restaurantes fazem?
A rede Subway afirmou em comunicado que dá preferência de compra a
fornecedores que compartilham do compromisso do grupo com o bem-estar animal e
que todo frango servido nas lojas no país vem de aves livres de confinamento em
gaiolas.
"Nós já iniciamos uma transição para trabalharmos apenas com fornecedores que
utilizam ovos de galinhas não confinadas em gaiolas. Nos comprometemos que até
2025 ou antes, 100% dos ovos utilizados nas fórmulas dos produtos nos
restaurantes da Subway Brasil, serão de galinhas não submetidas a confinamento."
Por sua vez, a KFC Brasil, franquia master da rede KFC, afirmou em comunicado
que "embora alguns mercados estejam mais avançados do que outros nessas áreas
(de bem estar animal), nosso objetivo é a melhoria contínua dos padrões de
cuidados com animais em todo o mundo".
A companhia afirmou ainda que sua política global é concentrada em quatro
áreas principais de saúde e bem-estar animal: taxas de mortalidade reduzidas,
saúde animal aprimorada, mobilidade animal e redução do estresse.
O Burguer King Brasil afirmou que "possui políticas rígidas relacionadas ao bem estar animal que precisam ser cumpridas para que um fornecedor seja homologado. A rede reforça o seu compromisso na escolha de seus parceiros para oferecer respeito e qualidade em toda cadeia produtiva".