A comercialização de soja e milho tomou impulso em Mato Grosso, no mês de maio, graças ao movimento de alta do dólar. As vendas anteciparam inclusive, os negócios a termo para entrega futura ainda da safra 2018/19 de milho, que já atinge 12% do que ainda nem foi planejado plantar. Esse otimismo momentâneo está sendo arrefecido pelas incertezas que a nova tabela de frete traz à dinâmica do agronegócio. Tanto no milho quanto na soja, o transporte da produção abocanha parcela significativa do lucro, chegando a mais de 80% do valor da saca do milho. As mudanças ao tabelamento do frete podem esfriar as duas pontas do mercado já que a conta que pode ficar ainda mais negativa ao produtor a partir da greve dos caminhoneiros.
Como apontam os analistas do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), o frete rodoviário é bastante significativo na formação dos preços e no custo de produção do milho mato-grossense. “Isso se deve ao fato de o Estado estar distante dos portos de escoamento, que, aliado ao déficit de armazenagem, acaba por gerar aumento na demanda e nos preços do frete no período de safra”. Calculando o custo do frete trabalhado no mercado sobre o preço do milho no mês de maio, observa-se que essa relação atinge 81,5% do valor da saca do cereal, enquanto que a mesma relação para o calcário e o fertilizante apresenta 52,8% e 6,1%, respectivamente, sobre a saca do cereal. Isso revela que é no transporte da produção a etapa mais cara para o produtor.
“No entanto, mesmo com essa relação já alta, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) divulgou uma resolução que determina a tabela de preço mínimo para o frete rodoviário, podendo tornar a relação ainda mais apertada, em vista da inclusão do frete com retorno sem carga. Com a colheita em andamento, a medida vem gerando grandes incertezas quanto à viabilização do escoamento da safra e dos cumprimentos de contrato”, avaliam os analistas do Imea.
Dados do mercado já mostram essa preocupação, reforça o Imea, apesar do incremento na procura por contratos, há insegurança dos produtores em relação ao cumprimento dessas vendas em decorrência das mudanças que podem ocorrer sobre o calculo do frete e afetar, em cheio, as margens de retorno financeiro. “No entanto, diante da recente divulgação da resolução ANTT, são relatadas preocupações quanto ao cumprimento efetivo dos contratos, o que demanda atenção neste momento de incertezas”.
A comercialização do milho mato-grossense relativa ao mês de maio trouxe avanços, tanto para a safra atual quanto para a temporada seguinte. Para a safra 2017/18, que já começou a ser colhida no Estado, as vendas apresentaram um avanço de 10,2 pontos percentuais (p.p.), alcançando 67,44% da produção estimada em 26,37 milhões de toneladas. “Esse avanço só foi possibilitado graças à valorização tanto no mercado externo, após os ganhos nas cotações do dólar, na bolsa de Chicago e nos prêmios, quanto no mercado interno, em decorrência das preocupações quanto à oferta de segunda safra no mercado brasileiro, contribuindo, assim, para um preço médio negociado de R$ 22,59/sc”. O valor atual supera em 53,5% a média do indicador Imea do mesmo momento de 2017, em R$ 14,69 a saca.
O Imea registrou ainda que devido às boas ofertas de preço, também foram iniciados os primeiros reportes de comercialização para o milho mato-grossense da safra 2018/19, que já apresenta 12,12% do total da produção estimada.
NA SOJA – O custo com transporte da soja mato-grossense, quanto dos seus insumos, detém importante peso na formação dos preços do grão e na viabilização financeira da cultura, visto que o Estado está distante dos portos. No mês de maio a relação frete/soja, que avalia o quanto o preço do frete, ‘toma’ do preço do grão representou 25,1%, enquanto que na comparação sobre os preços do calcário e dos fertilizantes, a mesma relação representa 52,8% e 6,1%, respectivamente. “Além de incluir o frete retorno sem carga, a atual situação vem ocorrendo em um momento em que há uma safra recorde de soja a ser escoada, sucedida pela do milho e do algodão, podendo limitar os embarques no próximo mês e pressionar ainda mais os preços do transporte”.