De duas a três semanas em queda, o dólar desvaloriza e perde mais de R$ 0,40
no câmbio com o real, resultado da especulação por conta da crise política que
se agrava e afeta a economia brasileira. Enquanto que na outra ponta, a do
fundamento, a soja reage a uma possível redução, maior do que a esperada, na
nova safra dos Estados Unidos. A alta também reflexo da manutenção da taxa de
juros nos Estados Unidos, que na semana passada foi mantida inalterada pelo
Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano. A sinalização é de que a
alta na taxa vai ser mais lenta do que o mercado esperava.
O dólar mais baixo torna o agronegócio dos Estados Unidos mais competitivo, com a commodity agrícola mais barata para o comprador internacional. No Brasil, ainda descolado de Chicago, quase que exclusivamente pelo câmbio, que beneficia especialmente as cotações da soja, o agronegócio segue em uma gangorra. Em um balanço bastante influenciado por variáveis de especulação e fundamento que exigem atenção redobrada não apenas no campo e no mercado, em Chicago e na lavoura. Mas de modo especial ao que ocorre em Brasília.
Um cenário que não chega dividir a opinião do produtor, de maioria absoluta favorável a um possível impeachment da presidente Dilma Rousseff ou, indiretamente, do PT (Partido dos Trabalhadores). Mas um ambiente que deixa o agricultor de certa forma entre a cruz e a espada. Isso porque, em tese, se o governo cai o dólar e o impacto é negativo nas cotações. Se o governo fica, o dólar sobe e o impacto é positivo. Isso tem a ver com a confiança do consumidor e do investidor, que pelo câmbio mexe sobremaneira no mercado interno, e no mercado globalizado do agronegócio.
É claro que tudo isso no curto prazo. Se o governo fica ou cai, a economia
pode mudar e a relação com o câmbio idem, com reflexos diversos no mercado
agrícola. Mas vai tempo para as coisas se organizarem. E como o agronegócio é
feito de ciclos, e de ciclos curtos, essa instabilidade torna o setor ainda mais
vulnerável e suscetível, não apenas ao clima – a mais intensa e tradicional
variável do segmento –, como política e economicamente falando. Ou seja, está
cada vez mais difícil, eu diria quase impossível, separar política de economia,
especulação de fundamento, câmbio de agronegócio.
Como ilustração, em maio de 2014 o câmbio flutuava na cada dos R$ 2,20 e a soja
em Chicago acima de US$ 14/bushel. De lá para cá o câmbio foi à R$ 4, está em R$
3,6 e a soja despencou abaixo de US$ 8,5 e na última semana conseguiu reagir,
temporariamente, e foi para perto dos US$ 9. A linha do tempo, por mais curta
que possa ser, ajuda a entender como a produção nacional está sujeita não apenas
a Chicago, referência de preço no mercado internacional, como aos rumos da
política, que influenciam de maneira decisiva a economia no Brasil.
Aposta continua
Apesar das incertezas, o produtor continua apostando forte. Liderado por Paraná e Mato Grosso, que juntos respondem por metade do volume, Brasil planta uma safra histórica de milho safrinha. A produção tem potencial para atingir 60 milhões de toneladas. A marca ainda depende do clima, que ao que tudo indica será favorável. Somadas às quase 30 milhões de toneladas esperadas para o verão, a produção total no ciclo 2015/16 deve se aproximar das 90 milhões de toneladas.
A cadeia produtiva do setor, assim como qualquer outro segmento da economia aguarda um 2016 de muitas dificuldades. A diferença de percepção, no entanto, está no desafio e na oportunidade. O agronegócio vive e consegue enxergar um horizonte que, apesar da conjuntura, é bastante segmentado, vertical e vive, de certa forma, não imune, mas descolado da recessão. Temos produção, mercado e preço. Pelo menos por hora, enquanto o câmbio compense Chicago ou Chicago compense o câmbio.
A principal variável, portanto, continua sendo o clima, que no Brasil, em especial nesta safra, segue com o câmbio na sua cola, desenhando um cenário de insegurança no campo e no mercado. Ainda assim, o país deve fechar a temporada 2015/16 com uma safra de 215 milhões de toneladas.